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Notícias | Polícia

Ainda nas ruas, tenente "Pitbull Tático" responde a inquéritos por tortura e morte

14/08/2019 | 10:19

Mikhail Favalessa

O tenente da Polícia Militar João Paulo Moura de Arruda é investigado por crimes de tortura, agressão e morte contra diversos cidadãos durante abordagens policiais em Cuiabá. Entre os métodos supostamente utilizados pelo PM estariam a utilização de sacos plásticos na cabeça dos denunciantes para obrigá-los a confessar crimes.

As informações constam em portarias de ao menos 11 Inquéritos Policiais Militares (IPM) instaurados em relação ao membro da Força Tática aos quais  teve acesso em primeira mão. As ocorrências, que poderiam constituir violações aos direitos humanos previstos na Constituição Federal caso comprovadas, começam em 2015 e vão até o primeiro semestre de 2019.

PM do concurso de 2011, João Paulo foi promovido a segundo tenente em setembro de 2015. Internamente, o policial é conhecido como “Pitbull Tático”, segundo revelou fonte à reportagem.

O primeiro registro é de 17 de novembro de 2015, dois meses depois da promoção. O tenente e o soldado Oacy da Silva Taques Neto teriam lesionado um menor de idade e invadido a casa da mãe dele no dia 12 daquele mês. O rapaz foi abordado em um posto de combustíveis no bairro Cidade Verde. Um policial à paisana teria perguntado ao jovem se ele sabia onde encontrar drogas, e ele teria dito não saber de nada.

Os dois militares então fizeram abordagem e teriam levado o menor, algemado, até um local próximo ao Campo Estrela, no bairro Santa Amália.

"Neste local, o menor C.J.S.B. teria sido lesionado com uma camiseta e sufocado por uma sacola plástica colocada em sua cabeça, atos praticados, em tese, pelos policiais que queriam saber do restante da droga. Posteriormente, levaram o referido menor até a sua residência, onde arrombaram a porta e entraram a procura do restante da droga, não encontrando nada", diz a portaria do IPM.


O tenente foi ouvido e afirmou que durante a abordagem foi encontrada uma porção de substância análoga a maconha com o menor e que ele afirmou que 5 kg da droga estariam escondidos em sua casa. O militar disse que o menor tentou fugir e foi imobilizado. Ele confirmou a ida até a casa, mas apenas informou que a droga não foi localizada e que o menor foi encaminhado à Central de Ocorrências.

Em 4 de janeiro de 2018, uma abordagem feita pelo tenente e outros três policiais resultou na morte de um suspeito no bairro Jardim Passaredo. No registro, é narrado que os PM viram uma moto trafegando na travessa nº 16 do bairro com duas pessoas que, quando avistaram a viatura teriam tentado fugir subindo no meio-fio. Houve perseguição, os dois bateram a moto, e a busca teria continuado a pé. Os policiais teriam usado munição não letal contra o homem. Nesse momento, o infrator J. U. M. J., teria sacado um revólver de calibre 38 da cintura e dado dois tiros contra os policiais, que revidaram matando o homem de 24 anos.

Um registro de 16 de abril narra fatos de 26 de março de 2018. Na ocasião, o tenente João Arruda, o soldado Oacy Taques e outros teriam torturado J. G. P. C. no bairro Cidade Alta. O homem foi preso em flagrante e durante a abordagem, os policiais teriam dados socos, chutes e pontapés na barriga e olhos dele. Um laudo pericial de lesão corporal teria identificado os machucados e que seriam recentes.

Já em 26 de abril de 2018, o PM teria agredido M. R. S. N. durante uma abordagem. O homem estaria correndo em alta velocidade em uma moto na avenida P do bairro Parque Atalaia. Durante acompanhamento foram realizados três disparos de munição não letal, não atingindo o suspeito, que foi detido e encaminhado à delegacia com escoriações no queixo e joelho esquerdo. O BO registrado diz que os machucados foram feitos durante a imobilização e colocação das algemas.

"Contudo M. R. S. N. afirma ter sofrido socos na cabeça do 2º tenente PM João Paulo de Moura Arruda, o fazendo cair no chão, momento em que o tenente teria desferido dois chutes em seu rosto, que no local estavam vários policiais militares que chegavam a fazer gestos em desacordo com a atitude do tenente, mas que nenhum deles fez nada, nem para agredir, nem para defendê-lo", diz o documento.

Sobre fatos ocorridos em 3 de janeiro de 2018, uma portaria de 30 de outubro do ano passado mostra que J. P. M. M. teria sido empurrado ao chão durante uma abordagem e que em seguida o PM teria feito um disparo de calibre 12 na perna do homem. Um irmão da vítima teria tentado filmar a abordagem e também teria sido agredido pelo PM com um chute e um soco.

Outro caso mostra o PM supostamente aplicando choques elétricos durante abordagem. Uma sindicância foi aberta em 30 de maio deste ano por fatos ocorridos em 6 de fevereiro de 2017. João Paulo e o soldado Pedro Hernan Bissoli Silva fizeram uma abordagem próximo ao hospital Jardim Cuiabá e ao dar continuidade à diligência se depararam com um segundo suspeito, que teria fugido e resistido à prisão.

"Todavia, em suas declarações durante o Termo de Qualificação, Vida Pregressa e Interrogatório, R. R. S. F. alegou ter sofrido agressão e choque elétrico por parte dos policiais militares na hora em que foi abordado", afirma o documento.

Também ao abordar um motorista embriagado na rodovia Palmiro Paes de Barros, sentido Parque Cuiabá, em 1 de janeiro deste ano, o policial teria se excedido ao fazer colocar as algemas e forçado o braço do homem até quebrar.

O PM também foi denunciado por lesão corporal e abuso de autoridade contra S. A. D. A. O homem foi abordado quando estava em uma Kia Sportage em 25 de março de 2018 no posto Podium, na mesma rodovia.

A equipe disse que o homem teria "interferido na abordagem com arrogância", tendo desobedecido ordens dos policiais durante a revista e cometido desacato. Os PM afirmam que fizeram disparo com munição não letal para cessar a ação do homem. S. A. D. A. afirmou à corporação que levou socos e chutes dos policiais e que foi alvejado com um tiro de arma de fogo na perna direita.

Apesar das diversas denúncias e dos procedimentos instaurados em relação ao tenente, ele segue trabalhando normalmente na Força Tática. A reportagem pediu explicações à Polícia Militar, mas não houve resposta até a publicação desta matéria.
 
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